terça-feira, 12 de julho de 2011

Shakespeare inebriado


Entre as boas coisas da vida, estão os vinhos. Acabei de saborear um tinto do porto, que uma amiga trouxe recentemente de Portugal. Não sou enólogo. Longe disto. Nem imagino quais seriam os sabores de frutas a ressaltar. Mas, inebriado pelo magnífico paladar, fico imaginando o caminho daquelas uvas especiais, as melhores da colheita, até a mesa da minha casa, aqui no Brasil.
Nunca fui até a Europa, mas é difícil não ficar encantado por toda tradição histórica do velho mundo. Portugal é nosso descobridor, mas há diversas outras influencias na formação do caldo cultural de nossa nação. E não dá para falar em vinho, sem pensar na Itália, terra dos chiantis, vinhos de alta qualidade, tão bons quanto às histórias de amor da velha bota. É verdade que Shakespeare era inglês, mas Romeu e Julieta são italianos. Eles apaixonados trocaram:

ROMEU — Que me prendam! Que me matem! Se assim o queres, estou de acordo. Digo que aquele acinzentado não é o raiar do dia; antes, é o pálido reflexo da lua. Digo que não é a cotovia que lança notas melodiosas para a abóbada do céu, tão acima de nossas cabeças. Tenho mais ânsia de ficar que vontade de partir. — Vem, morte, e seja bem-vinda! Julieta assim o quer. — Está bem assim, meu coração? Vamos conversar... posto que ainda não é dia!
JULIETA — É dia sim, é dia sim. Corre daqui, vai-te embora de uma vez! É a cotovia que canta assim tão desafinada, forçando irritantes dissonâncias e agudos desagradáveis. Alguns dizem que a cotovia separa frases melódicas com doçura; não posso acreditar, pois que ela vem agora nos separar. Alguns dizem que a cotovia é o odiável sapo, permutam seus olhos; como eu gostaria, agora, que eles também tivessem permutado suas vozes! Essa voz alarma-nos, afastando-nos um dos braços do outro, já que vem te caçar aqui, com o grito que dá início à caçada deste dia. Ah, vai-te agora; ilumina-se mais e mais a manhã.

Impossível estar em sã consciência, quando surgem versos tão maravilhosos, que parecem penetrar em nossas mentes, num comunicado entre o divino e o humano. Oh amiga, muito obrigado pelo vinho. Só você, quando me ler, vai saber que pela pouca quantidade, estas palavras saltam dos meus dedos no teclado, sem nenhuma influencia de Dionísio ou de Baco. Mas são sim, resultado do sabor esplendoroso das uvas do porto.
E a vida? Hora, a vida não tem muito sentido. A não ser que quisermos dar um sentido na vida. E é elogiável viver com sabedoria, longe destas luzes fugazes das celebridades, mas na busca do sabor perfeito, seja do vinho, seja da mulher, seja dos sentimentos que fazem pulsar o coração.
E hoje, penso que o futuro não está escrito. Mas cabe a nós escrevê-lo, com o melhor das nossas habilidades, lutando por aquilo que acreditamos. Sendo gentis, pois boa educação é condição sine qua non da humanidade, mas sem nos curvarmos a meras opiniões alheias, a não ser que nos provem o contrário.
Viva o Porto. Viva a Romeu e Julieta. Viva ao que de melhor existe na vida.

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