terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Evolução e Involução


Quanta evolução tecnológica neste início de século XXI. Nosso cotidiano está repleto de novidades que há apenas algum tempo só era possível em filmes de ficção científica. Sem esquecer que há 40 anos, cirurgias cardíacas eram prenúncio de morte e hoje hospitais como o INCOR realizam rotineiramente tal procedimento, com enorme sucesso. Mesmo a AIDS tem tratamentos que permitem aos pacientes viverem normalmente por longo período. Quantos avanços teremos nos próximos 100 anos? Nem George Lucas ou Steven Spielberg conseguem imaginar.
No entanto uma parte desta equação evolutiva não está no mesmo ritmo: o homem. Refiro-me não somente aos grandes eventos, como as guerras e o terrorismo. Principalmente falo do dia-a-dia, quando nos deparamos com demonstrações de egoísmo, arrogância e maldade. Coisas simples, como ceder lugar aos idosos ou mulheres grávidas, só acontece se uma lei determinar. Gente maliciosa cruza nosso caminho e nos faz sofrer propositadamente. A cordialidade e o bom caráter estão fora de moda.
Fiquei estupefato ao ler notícias sobre a estudante Isabella Baracat Negrato, de 20 anos, morta supostamente por overdose de drogas e álcool, num Cruzeiro Universitário. Os jornais publicaram que mesmo sabendo do falecimento, os passageiros do navio não deixaram de realizar a festa daquela noite. Pesquisando uma comunidade do Orkut, achei a seguinte declaração, transcrita com os erros gráficos da postagem: “po maninho... acho q vc tah se preocupando mto com a vida dos outros ... quem quis beber: bebeu, quem quis fumar: fumou... e o resto eh o resto... kd um assume suas consequencias...”.
Como o cruzeiro é voltado aos universitários e custa cerca de quatro ou cinco mil Reais, estamos falando de pessoas da classe média, estudantes do nível superior. Gente que em tese teve bons colégios. Acontece que escolas e universidades brasileiras cada vez mais se preocupam com o conteúdo programático do currículo, assim como nas técnicas de ensino, para que possam exibir orgulhosos seus alunos aprovados com louvor em vestibulares ou concursos públicos. É uma vergonha, afinal de contas transmitir ensinamento não é educação, e sem ética, produzimos uma geração capaz de tirar 100 na prova, mas que não aprendeu o que é respeito.
Habituamo-nos com o pensamento que é preciso viver intensamente. Como diz a letra da música, “sem ter a vergonha de ser feliz (...)”. Estas idéias soltas como estão, na mente de gente vazia de valores, leva ao raciocínio do “ser feliz a qualquer custo”, sem importar se estou magoando ou ferindo, até mesmo aos que me amam. Vivemos pelo instinto e por isso, no tal cruzeiro, há relatos de meninas que “ficaram com dez caras”. Até animais no cio, escolhem apenas um para acasalar.
O pensador alemão, Nietzsche, disse que o homem não evolui. Que somos tão bárbaros hoje, como éramos há Dez Mil anos. Que a verdadeira natureza do ser humano é a maldade, por isso não deveríamos nos envergonhar de fazer qualquer coisa para conquistar o que queremos. Já seu contemporâneo, Kant, pensava de forma contrária. Que o homem evolui sim. Que a arte, a literatura e a música, são provas cabais da bondade que nos habita, e apesar de cometermos atrocidades, podemos apreender e construir um mundo melhor.
Provavelmente existir é enfrentar todos os dias o dilema destas correntes filosóficas. Atuar por impulso ou caminhar no fio da ética, com a certeza de que estar vivo representa bem mais do que sexo, poder, dinheiro ou status social. Está na hora de discutirmos abertamente assuntos como estes, sem dogmas ou verdades absolutas, apenas buscando dialogar francamente sobre a responsabilidade que nos cabe, na edificação do futuro que queremos.
Quem sabe nossa vitória tecnológica esteja garantida, mas tenhamos que lutar a batalha diária dos nossos corações, cada vez que fazemos uma escolha. O filósofo Péricles escreveu: “o que você deixa para trás, não são monumentos de pedras, mas sim o que fica gravado na vida dos outros”. Pensar antes de agir, levando em consideração o que é certo ou errado, é escolher o caminho da evolução e da longevidade da espécie humana.