terça-feira, 14 de julho de 2009

Batatismo

Estes dias estava assistindo televisão de madrugada, quando era exibida a famosa série A Família Dinossauro. No episódio foi apresentando o Livro da Batata, que todos deveriam obedecer sem questionar. Nele estava contido tudo de importante para um Dinossauro saber. O que não estava escrito ali era subversivo ou não interessava. Quem ousava questionar seus ensinamentos, era preso e queimado na fogueira.
O que não passa de piada ridícula na TV, é a dura realidade em paises como a Venezuela de Hugo Chavez. Nos últimos tempos o déspota bolivariano nacionalizou dezenas de empresas e ameaçou com sua ira todo aquele que se insurgir contra o que está fazendo. Inclusive, diversas emissoras de rádio e TV vão ter a concessão caçada a qualquer momento, já que não endossam os atos praticados por Chavez. Não é o mesmo batatismo da Família Dinossauro?
Triste sina da América Latina, que vive em busca de ‘líderes’ ou ‘salvadores da pátria’, seja na Venezuela, no Equador ou na Bolívia. Tudo indica que o ranço do atraso está impregnado nas entranhas da nossa cultura. Nacionalizar ou Estatizar empresas nos dias atuais é abraçar políticas saídas dos anos 30 e 40, no Século XX. Seria como abolirmos a luz elétrica, e adotarmos a lamparina; o vaso sanitário, pelo pinico e a televisão de LCD pelo rádio a válvulas. Pois é exatamente esta a América Latina de Chaves e Asseclas. Este dinossauro em tudo lembra o criador do fascismo na Itália, Benito Mussolini, e sua máxima: “Tudo pelo Estado. Tudo para o Estado. Nada fora do Estado”. O resultado foi à aliança com o nazismo, o assassinato da oposição e minorias étnicas, que desembocou na destruição e miséria da Segunda Guerra Mundial.
Não se sabe qual será a alternativa da Argentina. As administrações dos Kirchneres têm sido desastrosas para o país platino. Lá também existe a crença do Estado provedor, que resolve todos os problemas do cidadão comum. Ou seja, acreditam no Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa. Por mais belas que as lendas sejam, são mera ficção. Já Chile e Colômbia, por motivos diferentes, são muito mais realistas. O primeiro conseguiu superar anos da ditadura Pinochet, e com saudável alternância de poder, transformou-se em modelo de nação em busca do desenvolvimento econômico e social. Já a Colômbia, com sua proximidade política e militar com os Estados Unidos, na luta contra a narcoguerrilha das Farcs, não permitiram o enveredamento das idéias bolivarianas.
Mas e o Brasil? Não se tem resposta absolutamente conclusiva. No plano interno, parece que a partir da Constituição de 1988, o compromisso com a democracia e com o Estado Democrático e de Direitos, tem se consolidado a cada dia. A edição de legislações como o código de defesa do consumidor, o estatuto do idoso, o estatuto da criança e do adolescente; parece mostrar que depois de sofrermos nas mãos dos batatistas por tanto tempo, optamos pelo fortalecimento das instituições e não dos homens. Estamos ainda no início do caminho rumo à civilização, que certamente passa por leis que limitem o poder do Estado ao mínimo exigível, como ocorre em qualquer lugar que chamamos de desenvolvido no mundo. Neste aspecto, Fernando Henrique Cardoso e Lula, apesar de parecerem opostos, são sinóticos, pois suas administrações, mesmo com críticas a serem feitas, jamais se colocaram contra a ordem estabelecida. Isso é maravilhoso, principalmente se olharmos nossa história recheada de caudilhismos.
O que preocupa é o front externo. O Itamaraty abraçou o pragmatismo comercial de tal maneira, que nem importa sair na foto com ditadores em que até mesmo mandato de prisão da Corte Internacional de Justiça, possuem. Em recente visita até a África, foi o que se viu. Enquanto quase todo o Mundo condenou a possível fraude nas eleições iranianas, o Brasil apoiou o regime dos Aiatolas. Na América Latina, o BNDES virou banco de fomento na Venezuela, Equador, Bolívia e etc. Até onde iremos?
Infelizmente, a grande maioria dos brasileiros pouco se importa com questões relacionadas à política externa. O perigo de ter fronteiras com nações cujo pensamento é estruturalmente diverso do nosso, são as guerras. Isto é fato verificável não só nas relações atuais, mas também ao longo da história. Lógico que não estamos nos referindo ao curto ou médio prazo. Contudo o que acontecerá nas fronteiras nacionais, quando um governo estrangeiro resolver testar de verdade nosso limite? Espero que nunca precisemos descobrir, pelo bem das próximas gerações.