domingo, 17 de agosto de 2008

César Cielo e o Admirável Mundo Novo

Aldous Huxley, autor de o Admirável Mundo Novo, quando escreveu este livro, imaginava uma sociedade em que não houvesse liberdade individual e a felicidade fosse obtida através do uso das drogas. Quando li pela primeira vez, refleti sobre quão abominável seria ter a faculdade de pensar, subtraída por imposição do Estado. Mas, ao fazer a releitura e comparar com a realidade atual, noto que nenhum tipo de coação física ou moral foi necessária, para passarmos a viver algo parecido com o que previu Huxley.
Émile Durkheim escreveu muitos anos atrás que não existe espontaneidade nas relações humanas. Que somos condicionados, desde a tenra infância, a pensar como o grupo social deseja. Certa vez, estava assistindo uma palestra e confesso que na ocasião conversava, sem prestar atenção, quando de repente o público aplaudiu. Na mesma hora, aplaudi também. Neste instante, refleti: “o velho Durkheim deve estar certo”. Pode parecer bobagem, mas é impressionante a quantidade de coisas sem sentido que fazemos, simplesmente reagindo a estímulos.
Experiência interessante é perguntar aos amigos, sobre o por quê de estarem seguindo determinado caminho? Pode ser em relação ao curso que estão fazendo ou até mesmo sobre quem está namorando. Em regra a resposta vai ser banal: “este curso é legal” ou “ela (e) é linda (o) demais”. A maioria de nós é como um barco, que enfrenta uma forte corredeira (a vida) sem nenhum tipo de controle. Apenas as águas do rio sabem aonde iremos parar.
Na verdade, como Huxley temia, a existência de grande parte dos seres humanos é uma experiência vazia e sem significado. Não há motivo para nada, a não ser superficialidades. Buscamos a felicidade nas drogas. Drogas químicas ou drogas emocionais, como relacionamentos frívolos, o alcoolismo e outras bobagens completamente sem importância que tanto desejamos.
Durkheim falava de uma espécie de “consciência coletiva”. O modismo social, talvez seja a principal manifestação desta crença. Todo mundo quer aparecer e ter alguns minutos de fama. Não importa quão ridículo precise ir, para obter este resultado. Por isso falamos alto e estamos sempre buscando chamar a atenção. No fundo, o objetivo é ser o ganhador do Big Brother. Queremos apenas um instante de magia. Nem por um milionésimo de segundo, somos capazes de pensar quão fútil e ridícula é esta atitude.
Mais triste, é constatar que não foi preciso nenhum tipo de estrutura social ou poder do Estado, para que abríssemos mão do direito de pensar. De livre e espontânea vontade, fizemos isso. Não lemos, não escrevemos, e com isto nos desumanizamos. A forma passou a ser fundamental. O conteúdo, dispensável.
Instituições de ensino noticiam que seus alunos são os melhores, mas estes mesmos alunos são mesquinhos e egoístas, incapazes de elaborar um pensamento sobre determinados assuntos ou mesmo falar sobre uma simples poesia. Não lhes é ensinado a dizer “muito obrigado”, “por favor” e “com licença”. Que educação é esta?
Nosso medalhista de ouro em Pequim, César Cielo, só conquistou admiração, porque venceu a prova dos 50 metros nas olimpíadas e tornou-se famoso. Quase todos gostariam de ter a notoriedade que ele tem agora. Porém pergunto: quem se disporia a ficar meses e meses só treinando, sem nenhuma diversão, para atingir um objetivo? A maioria não abriria mão nem de um único final de semana.
César Cielo é muito mais do que um campeão olímpico. É um vencedor da vida, pois sempre teve um objetivo e partiu com determinação para conquistá-lo, abrindo mão dos tão valorizados momentos de lazer. Enquanto muitos freqüentavam o Show da Ivete Sangalo, Cielo treinava duro para ser campeão.
Seria extraordinário se a vitória de Cesar Cielo nos inspirasse a perseguir objetivos. A pensar como indivíduos, ao invés de bando. Seja no esporte, seja nos estudos, seja no dia-a-dia, é fundamental ter um sonho a alcançar e se entregar com afinco e paixão, não só pelas medalhas ou pelos holofotes que isso possa nos trazer, mas, principalmente, para mostramos a nós mesmos, que quando queremos algo de verdade, somos capazes de tornar sonhos, realidade.
Claro que isso só acontece com sacrifícios, mas são os sacrifícios que no final permitirão que possamos dizer: Eu Venci! Eu venci!