sábado, 11 de outubro de 2008

O Lixo que Brilha

O que são bons momentos? Certa vez participei de um grande evento, com muita gente importante. Foi um encontro numa fazenda, em que mais de dez helicópteros perfilavam, lado a lado. Gente de todo Brasil estava lá.
Mais interessante aconteceu quando quase todos já haviam ido embora e apenas poucas pessoas ficaram, junto aos que trabalharam na preparação da festa. De repente nos tornamos centro das atenções. Foi quando sentei numa poltrona, frente a uma paisagem deslumbrante. Adormeci, talvez pelo efeito do bom vinho, talvez inebriado sim, mas pelo fim de tarde que começava. Naquele instante sonhei com um mundo cujos valores principais dos homens estivessem voltados a busca da verdadeira felicidade.
Não mais guerras, não mais violências, não mais desigualdades sociais. Um mundo em que pudéssemos entender quão rápida é a vida, e que brevemente estaremos mortos. Então, de nada adiantara à riqueza acumulada, o poder, a posição social, ou mesmo os bregas títulos de doutor que gostamos de ostentar. O que vai valer de verdade é o fato de não termos dito “eu te amo”, a quem deveríamos. Talvez, e principalmente, de não ter valorizado este “eu te amo”, que ouvimos. Nada mais nos restara, pois o ar já não chega aos pulmões, nem faz pulsar o coração. Tudo que acumulamos, foi-se. Se houver verdadeiramente um espírito, algum tipo de vida após a morte, nossa única reflexão será: “quão tolas foram as minhas preocupações”.
Incompreensível como conseguimos construir uma sociedade que nada tem de importância verdadeira. Tornamo-nos servos dos próprios caprichos, da luxuria, da gula, da cobiça. Coisas feitas para nos servir, passaram a ser nossas mestras. O grande Carlos Drummond de Andrade escreveu certa vez: "Se procurar bem, você acaba encontrando, não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida".
Poucos hão de compreender o sentido intrínseco destas palavras, pois atualmente tudo não passa de superficialidades. Avaliamos quem é bem-sucedido por sua conta bancária, ou se mora numa grande casa, tem um carro do ano ou se é fisicamente bonito. Por este parâmetro, qual seria a avaliação de Mozart, que se diz morreu de fome? Ou de Van Gogh, que além de nunca haver vendido um único quadro em vida, se matou num milharal, por não conseguir conquistar o amor de sua amada? Ou de Einstein que tinha vários ternos iguais, para não perder tempo escolhendo o que vestir?
Estou quase me convencendo de que fazer sucesso é provar que não se tem nenhum valor. Basta olhar quem chamamos de bem-sucedido. Lembremos a Britney Spears, uma menina bêbada, drogada e vazia, que até nem mesmo a guarda do filho perdeu pelas bizarrices. Quantos ex-participantes do famigerado BBB são famosos, sem nada terem a dizer?
Claro que há exceções e muita gente boa habita este mundo. É verdade que poucos conseguem cintilar, pois é tempo do lixo brilhar. Por isso é preciso destacar os cientistas brasileiros da NASA – Agência Espacial Americana, entre eles Regina North, que a maioria nunca ouviu falar, mas que trabalha para levar o homem até Marte, antes da terceira década deste século. Foi dela a iniciativa de acordar o robozinho Patfinder, com a musica “coisinha tão bonitinha do pai” (da sambista Beth Carvalho). Seu pai e sua mãe devem estar orgulhosos pelo fato da filha estar ajudando a escrever a história da humanidade. Quando muita gente que hoje é notícia nem mesmo for uma leve lembrança no tempo, Regina vai estar fazendo parte dos livros que vão contar a saga do homem nos primeiros dias das viagens espaciais.
Lembrei-me de Cristovão Colombo, cujo final de vida foi de muitas dificuldades. Certo dia alguns de seus inimigos o viram saindo da missa, e um comentou: “lá vai um homem alquebrado, que ninguém mais quer receber em casa, por suas idéias loucas e por ser tão anti-social”. Foi então que, surpreendentemente, o inimigo que viveu para destruí-lo, disse: “Não seja idiota, daqui a cem anos ninguém vai saber que você e eu existimos, mas o nome de Cristovão Colombo vai ficar gravado eternamente nos anais da história”.
Só os que ousam viver sob suas próprias regras e consideram irrelevante o que pensa à sociedade, são capazes de abrir novos caminhos por onde, algum dia, irá trafegar toda a humanidade. Como escreveu Emerson: “Não siga a estrada. Ao contrário, vá por onde não haja estrada e deixe uma trilha para os que tiverem coragem de segui-lo”.