quinta-feira, 29 de julho de 2010

Nova Iorque Por Aí

Quando criança uma das coisas que mais gostava era comprar O Globo aos domingos. Morava no bairro de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, e acordava cedo para fazer a longa caminhada até a banca. Na volta, a aflição batia forte, pois ansiava começar a leitura. Abria o jornal e ia direto à coluna do jornalista Paulo Francis, Nova Iorque Por Aí. Naqueles tempos do inicio da adolescência, era tão bom quanto espiar uma mulher tirando a roupa.
Enquanto a maioria apreciava os comentários dele na TV, eu tinha a oportunidade de me deslumbrar com sua maneira singular de ver nosso país e o mundo. Frases como: “o Brasil é a única nação em que se leva o comunismo a sério”; “Fernando Henrique Cardoso é o primeiro presidente da República ao qual poderíamos levar para jantar em nossas casas, sem nos preocuparmos com as gafes que vai cometer a mesa”, ou “fumar maconha não faz mal nenhum. O único malefício a saúde vem daquele fedor horroroso”, são dele. Apesar da minha voracidade pelo conhecer, jamais tinha lido quem escrevesse coisas desse tipo.
Atualmente, mesmo com a multiplicação das colunas de opinião, dos blogs, do twitter, não surgiu ninguém assim. Tudo é absolutamente igual. Raro alguém ter coragem de defender posições contrárias a maioria. A imprensa goza de um poder inquestionável. Quando uma notícia é apresentada, os leitores, ouvintes ou telespectadores crêem nela sem nenhuma reflexão. Já as pesquisas de opinião são ordens divinas. Por exemplo, quando a maioria está consumindo determinada coisa, nos tornamos igualmente consumidores, sem crítica ou observação.
Por isso tenho saudades de Paulo Francis. Fico imaginando seus comentários ao saber que o Big Brother é o programa de maior audiência da TV brasileira. Sou capaz de apostar que escreveria algo do tipo: “isso prova que o brasileiro médio é um imbecil”. Qual colunista teria coragem de chamar boa parte dos leitores de imbecil? Nenhum. Francis o faria sem hesitar e os ofendidos ficariam ávidos a ler o artigo seguinte, ansiosos em saber qual o próximo xingamento.
O PT era um dos objetos prediletos. Certa vez escreveu que Lula deveria ser alfabetizado primeiro, antes de tentar ser o presidente da República. Contou que o imaginava num banquete, no Palácio de Buckinghan, comendo frango com as mãos, lambendo os dedos e dizendo que não tomaria o cafezinho no final, para a Rainha Elizabeth não ter que ir ao fogão.
A Petrobras foi outro dos grandes alvos de Francis. Disse que não conseguia conceber quanto seria o montante desviado pela corrupção na estatal. Denunciou supostas contas de seus diretores em paraísos fiscais, o que lhe rendeu um processo em Nova Iorque, pedindo reparação no valor de 100 Milhões de dólares. Amigos próximos acham que o stress causado pela ação o levou ao infarto fatal. A decepção vinha também de não ter recebido o apoio dos amigos de longa data da imprensa brasileira (exceção ao Hélio Gaspari).
O pensamento que mais gosto dele é o seguinte: “Dizem que ofendo as pessoas. É um erro. Trato as pessoas como adultas. Critico-as. É tão incomum isso na nossa imprensa que as pessoas acham que é ofensa. Crítica não é raiva. É crítica. Às vezes é estúpida. O leitor que julgue. Acho que o que ofende é o jornalismo em cima do muro, que não quer contestar coisa alguma. Meu tom às vezes é sarcástico. Pode ser desagradável. Mas é, insisto, uma forma de respeito, ou, até, se quiserem, a irritação do amante rejeitado”.
A verdade lamentável é que nós, brasileiros, em regra somos mesmo infantilizados. Trocamos o delicioso almoço pela bala vagabunda que compramos no botequim da esquina. Pensar, por vezes, dói. Pior ainda, vemos que estamos errados, mas teimamos em continuar nos mesmos desacertos, não importa se o tema envolve grandes questões nacionais ou o dia a dia das relações humanas, na família, com os amigos e no emprego. Por isso Paulo Francis faz tanta falta, e, ao nos chamar de imbecis, naquele rápido instante, aflorava a indignação latente e por segundos pensávamos por conta própria, sem seguir tendências populares.
“Quem não lê, não pensa e quem não pensa, será eternamente servo”. Um dos Diários da Corte (Nova Iorque Por Aí), que li em certo domingo, há 30 anos, continha essa frase. Resolvi então ser eu mesmo, encontrando meus gostos e minhas preferências e jamais tornar-me o boi que acompanha o estouro da boiada. É verdade que isso tem um preço, como certo isolamento, já que suas opiniões divergem da grande maioria. Contudo é exatamente por isso, que vale a pena e hoje posso fazer esse humilde elogio ao mais importante gênio do jornalismo brasileiro em toda a história: Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, ou simplesmente Paulo Francis.

Um comentário:

Paulinha Erthal disse...

Salve Salve... que saudade d suas palavras, de sua verdade... hj resolvi dar uma olhadinha em meu blog q n escrevo a séculos e qd percebi ja estava dentro das poucas bobagens e mt bom senso (ou seria ao contrário?) que envolvem seu blog, e como sempre, termino de ler seus textos com uma súbita vontade de aplaudilos. Bj grande meu amigo.