quinta-feira, 7 de agosto de 2008

O STF e a Bunda da Mulher Melancia

Quem segura nossa alma autoritária? Jamais ficaria de graça os séculos de autoritarismo vividos pelos brasileiros, desde a chegada da nau de Pedro Álvarez Cabral, passando pela vinda de Dom João VI, do Império, da Velha República, do Estado Novo, da pueril democracia de 1945 até 1964, da Ditadura Militar, da Nova República e etc.
Somente em 1988, depois de sete tentativas, o Brasil conseguiu escrever uma Constituição que pode vigorar em qualquer nação civilizada do planeta. Talvez por isso, nossa desídia com ela seja tanta. A selvageria brasileira não consegue se adaptar a civilização. Lembremos que um ícone pop da atualidade é a mulher melancia. Nada mais revelador: é de bunda empinada que gostamos. Livros, arte, poesia, boa música, não faz parte das preferências nacionais. Cultura é assistir Big Brother.
Esta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF), julgou uma Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), ajuizada pela Associação dos Magistrados do Brasil (AMB), que pretendia dar poder aos juízes de tornar inelegível quem estiver respondendo processo judicial. Quando quem não conhece o direito diz isso, não levo a sério, pois falta conhecimento técnico. Mas a AMB é uma das mais importantes e intelectualizadas entidades nacionais e sabe muito bem que isto é uma verdadeira aberração jurídica. Viola frontalmente o princípio da presunção de inocência que está na Constituição Federal (CF). A mesma Constituição civilizada e de primeiro mundo que nós temos.
Imaginem: caso não goste de alguém que é candidato, basta iniciar um processo e pronto, tornei meu adversário inelegível. Alguns dirão que tem que passar pelo crivo do Ministério Público e da própria Magistratura. Sei, sei. Dos mesmos juízes que estão abarrotados de ações e muitas vezes transferem aos secretários o poder de proferir a sentença? É este Poder Judiciário que quer tornar alguém inelegível?
No dia em que escrevo este artigo, há ameaça de bomba no prédio do STF. Possivelmente o alvo são as decisões impopulares tomadas recentemente, mas que garantem Direitos Fundamentais do cidadão brasileiro. Considero este episódio gravíssimo. Pior só o silêncio do Congresso Nacional e da Presidência da República, sem esquecer os partidos políticos e a OAB, que necessariamente teriam que abominar manifestações terroristas contra o STF. Lembremos: a Constituição é na verdade um pacto que permite a existência do que chamamos de Brasil. Quando se ataca a CF, todos somos atingidos.
Espero que os anos abrandem nossa cultura autoritária e entendamos ser bem melhor viver sob a égide do Estado Democrático e de Direitos, em que a lei e as instituições imperam, e não a vontade dos homens ou mesmo das massas. Na sessão do STF que derrubou a pretensão da AMB, o Ministro Cezar Pelluzo citou em seu voto o julgamento de Jesus Cristo. Quando Pilatos perguntou ao povo se absolvia Cristo ou o criminoso Barrabas, não houve nem um segundo de hesitação: liberta Barrabas.
A massa manipulável pelos interesses dos grupos é injusta, cega e ignorante. O clamor popular é extremamente perigoso a democracia. Na Revolução Francesa, o período de terror serve como exemplo. Símbolo desta época, o jornalista Jean-Paul Marat, escrevia que certo indivíduo era inimigo do povo e este era guilhotinado.
Hoje não é tão diferente. Basta uma reportagem que leve a crer que determinado cidadão é culpado e pronto, este vira culpado e rasgue-se a presunção de inocência. Não esqueçam, caros leitores, um dia o dedo da mídia pode estar apontado para você e então, se não tivermos um judiciário acima do populismo, quem poderá garantir seu direito?
Mas isso não é importante. Fundamental é a bunda da mulher melancia e de outras delícias do gênero. Esse troço de Estado Democrático e de Direitos é muito chato e está ficando fora de moda. Na próxima coluna discutamos sobre a maravilhosa Sabrina Sato e quem o Bruno Gagliasso está pegando?
Fico devendo!

2 comentários:

João Neto disse...

Antes de tecer meus comentários quero parabenizar este grande mestre Thompson, irmão, amigo em quem busco um dedinho de prosa para aprender mais.

A atual sociedade brasileira vive uma inversão de valores. Busca-se na manipulação das relações inter-pessoais colher o conveniente à situação mais favorável.
Esqueceu-se que a culpa de uma pessoa só se auferi numa sentença com transito em julgado; só se pode considerar condenado por algo aquele que, por uma sentença final condenatória, sofre as implicações legais.
Esta inversão de valores, como muito bem dispõe o MESTRE THOMPSON, é amplamente visto e lido em todas as esquinas. Basta uma mera especulação, seja ela qual for, para que a sentença popular, a sentença da opinião pública, extraia dum sujeito a sua vida social e privada.
No Brasil condena-se mais pelo que não fez. As ignomínias brasileiras autorizam a sociedade e o quarto poder (a mídia) a se investirem de juz puniendi, vindo a causar a insegurança das bases jurídicas existentes. Sabemos que é verdade que os “juízes que estão abarrotados de processos”; o Estado brasileiro não consegue se organizar em relação a isto, vejam os últimos concursos para magistratura no Brasil. Porém, isso não autoriza a degradação de direitos.
Aquiescendo a improcedência da ADPF que bem comenta o MESTRE THOMPSON, o ministro presidente do STF Gilmar Mendes afirmou em seu voto que a Corte não deve julgar o assunto gerando injustiças;”cada vez mais nós sabemos que o Direito deve ser achado na lei e não na rua” e se contrário o STF se posicionasse “produziria uma hecatombe, injustiças em série”.
Aqui, em “O STF e a Bunda da Mulher Melancia” de autoria do grande Thompson (autoria no sentido de aquele que escreveu o artigo, seja registrado), transmuta a realidade que vive o brasileiro nos óbvios caminhos que seguirão. Como um cidadão que entende o que é a res publica, Thompson nos alerta para um caminho mais óbvio que é o de arregaçar as mangas e buscarmos, de forma sadia, com o respaldo legal, legítimo, e democrático, sermos verdadeiros cidadãos, não meros espectadores de CPIs e todos os “Is” que vemos por ai.


Parabéns Dr. TH.

João Neto

WILLER BLOG disse...

É muito comum as resportagens sensacionalistas da televisão ao fazerem uma matéria policial anunciarem: "...O suspeito foi preso e levado a delegacia...". É nessas horas que fico observando que todos os suspeitos sempre são levados ALGEMADOS. Pra mim, isso é um tremendo erro, pois suspeitos, não são culpados, logo não deveriam ser algemados, como sempre ocorre. O Observatório da Imprensa sempre ressalta o fato de que a imprensa nunca volta atrás para informar que um determinado suspeito exibido em alguma matéria, ERA INOCENTE. Mas, que é que está ligando pra isso, afinal de contas, hoje vai ter jogo do FLAMENTO mermo malandro.......